Que o cenário econômico brasileiro não anda fácil para ninguém, não é brincadeira. Mas antes de falar como cuidar das finanças pessoais e preparar aquele planejamento para o início do ano, temos que abrir um parêntese para verificar o que está acontecendo ao nosso redor. Estamos vivenciando uma pós-pandemia do Covid-19, o qual o efeito foi muito forte, que abalou não somente área da saúde, mas também outras áreas entre elas a economia e com isso, cuidar dos gastos pessoais se tornou um desafio.

Além da pandemia entram outros fatores também no cenário mundial, como a economia dos Estados Unidos, da Europa e o mais preocupante o confronto entre a Rússia e Ucrânia. Mas aí você deve estar pensando o que eu tenho a ver com isso? O que interfere nos meus gastos pessoais?

Pois bem, aqui no Brasil os resultados econômicos podem ficar estagnados por conta do  PIB (Produto Interno Bruto) com pouco variação do crescimento e com isso a retração da economia vem sendo percebido pelas empresas, geram incertezas para elas tomarem decisões e acabam reprimindo seus investimentos como sinal de alerta. Com isso pode-se dizer que é o mesmo efeito para as pessoas físicas consumidoras que também passam segurar o consumo e outras aquisições. Percebe-se então que o cenário econômico interfere nas finanças pessoais, aumento de preços, juros e inflação, abrangendo a economia como um todo, em um efeito cascata.

Diante destas situações externas e internas podemos observar as consequências aqui no Brasil onde a inflação está mais alta e por conta disso o Governo tenta controlar o consumo da população através do aumento da taxa Selic (taxa de juros oficial do governo) que fechará o ano em 13,75% ao a.a. Mais um indicador para planejar e cuidar dos gastos pessoais para o início do ano, pois os juros vão iniciar em alta.

E é assim diante deste cenário que começamos a planejar o gerenciamento das contas pessoais para o início do ano onde há um aumento dos gastos, por conta daquelas despesas tradicionais como escola, IPVA, IPTU, entre outros.

Para realizar um planejamento das finanças pessoais, é necessário iniciar um levantamento dos seguintes pontos:

– Das fontes de rendas conforme atividades desenvolvidas que podem ser salário, pró-labore e outras fontes de rendas, como por exemplo alugueis a receber e receitas financeiras;

– Dos gastos mensais como alimentação, moradia, transporte, escola entre outros;

– Das prestações, valores pagos mensalmente e o montante total em prazo e valor;

– Também coloque neste levantamento reservas financeiras, como poupança por exemplo.

Dica anote tudo, observe a sua realidade financeira, pois são estes dados que serão gerenciados, que ajudarão evitar endividamentos e perder o controle. Segundo a Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC), o endividamento das famílias evoluiu muito, reprimindo a capacidade de consumo da população, levando ao aumento da inadimplência. Ainda segunda a pesquisa as famílias com renda inferior a 10 salário mínimos, o endividamento superou 80% pela primeira vez. Impactam diretamente sobre isso a alta da inflação, juros mais caros, a perda de empregos, este último vem se recuperando conforme fontes do IBGE.

Coletadas estas informações é importante verificar se não está gastando mais do que ganha. Para equilibrar esta situação pode-se definir um limite de gastos pessoais mensalmente de acordo com as necessidades.

E diante destas primeiras análises que teremos as condições para elaborar o orçamento das finanças pessoais: some todos os seus gastos pessoais e separe um valor para reserva financeira. Analise se os valores estão dentro dos seus ganhos. Caso não, terá que fazer ajustes, na prática exigirá muita disciplina para equilibrar seu orçamento.

Até aqui falei de dois momentos dos gastos pessoais, sendo o primeiro que é o registro de todos os gastos e ganhos realizados, aquilo que já aconteceu, sendo o registro histórico do fato acontecido. O segundo momento é do orçamento dos gastos pessoais que significa estimar o quanto irá gastar nos meses futuros. Aqui é o ponto crucial para seguir com muita disciplina, pois sabe-se que através da estimativa, quanto poderá gastar, fica mais fácil enxergar o limite de gastos.

A diferença entre um e outro é que no orçamento previsto você já tem um norte para seguir, diferentemente que se fizer somente o registro dos gastos pessoais, o que torna uma decisão mais complicada, pois os fatos já foram consumados. Por isso é importante seguir com os dois, analisando-os sempre.

Vejamos como é interessante realizar o orçamento dos gastos pessoais. Todos aqueles gastos e ganhos eventuais que acontecem em meses ou períodos específicos, podemos inserir no orçamento e analisar estrategicamente como ser gastos ou aplicados.

Por exemplo no final do ano muitas pessoas recebem o 13º salário ou em outros períodos alguns tem ganhos extras. No próprio orçamento dos gastos pessoais teremos a condição de analisar se estes ganhos irão para uma reserva, se saldará alguma dívida obtendo descontos, enfim são muitas análises que poderão ser feitas conforme o orçamento de cada um.

Já com relação aos gastos no orçamento, além daqueles tradicionais mensais, no início do ano poderão ser previstos aqueles que engrossam as contas como por exemplo os gastos com escola, inclusive fontes já divulgam aumento em torno de 11%, IPTU, IPVA e quem sabe incluir aquelas férias ou passeio, afinal a vida não é só trabalho e pagar contas.

Bem sabemos que estamos inseridos em um grande cenário econômico externo e interno e com turbulências, mas cabe a cada um gerenciar seus gastos pessoais se preparando estrategicamente, não esquecendo de verificar seus compromissos de longo prazo, reservas financeiras e principalmente cautela se demandar de empréstimos com instituições financeiras.

Para todo este processo sabemos que exige muita organização e disciplina, pegar o hábito de anotar seus ganhos e controlar seus gastos. Se tem dificuldades inicie aos poucos coletando informações até chegar ao ponto de analisar sua situação financeira, vale a pena ver o dinheiro trabalhar para você e não trabalhar para o dinheiro.

Não esqueça de incluir neste processo sua família para tomar decisões em conjunto sobre limites de cartão de crédito, empréstimos, compras não programadas como troca de veículos e outros bens. Gerenciar e fazer um orçamento das finanças pessoais, poderá lhe ajudar a controlar e manter uma tranquilidade financeira.

Por Roque Andrade – Consultor em Finanças; Contador; Sócio das empresas Conta Gestor Contabilidade e RA Consultoria Empresarial; Consultor Credenciado Sebrae-Pr; Especialista MBA em Finanças, Auditoria e Planejamento Tributário; Diretor Suplente do Sescap Campos Gerais; Membro do IPEC Instituo de Estudos Contábeis de Ponta Grossa.